O Clube dos Poetas Mortos: quando a poesia nos ensina a viver

   

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Sabia que havia um filme sobre o qual tinha de escrever, mas não me lembrava de qual. Até que me deparei novamente com um poema de Henry David Thoreau, que começa assim: «Fui para os bosques porque queria viver deliberadamente», e percebi que queria escrever sobre O Clube dos Poetas Mortos.

Um enredo intemporal que, até hoje, continua a ser revisto por gerações e gerações. Uma história de amadurecimento, de fins e de inícios. Uma turma de jovens filhos da elite, os futuros líderes da América, vê a sua vida e a sua visão do mundo mudarem com a chegada de um novo professor de Literatura, John Keating, interpretado de forma brilhante pelo icónico Robin Williams.

Esta turma fica profundamente inspirada por ele, pela sua forma pouco ortodoxa de dar aulas num dos colégios mais ortodoxos dos Estados Unidos, pela sua irreverência e pelo seu infinito questionamento.

Este professor fez com estes alunos aquilo que um bom livro faz a quem o lê. Ou, neste caso, muitos livros. Ensinou-os a questionar, nas profundezas do ser: quem sou, o que quero, o que faço aqui?

Com ele, aprenderam que há profissões e áreas importantes para a sociedade, como a Economia, o Direito e a Gestão, mas que a Poesia, a Música e a Literatura são coisas pelas quais vale a pena viver. Porque viver não é apenas cumprir aquilo que esperam de nós, mas também descobrir aquilo que nos faz sentir vivos.

E talvez seja esse o grande ensinamento de Keating: não aceitar o mundo como uma verdade absoluta, mas atrevermo-nos a olhá-lo de outra perspetiva. Subir para cima de uma secretária, se for preciso, para perceber que há sempre outra forma de ver as coisas.

Já perdi a conta às vezes que vi este filme, mas não consigo deixar de me emocionar naquele momento em que a turma, à revelia do diretor, se despede de Keating, evocando Walt Whitman: «O Captain! My Captain!».

A vida é feita de encontros e desencontros. Ali, separaram-se, mas seguiram diferentes, todos eles, com uma visão, uma perspetiva única e mais apurada sobre a vida. Raras são as pessoas que passam por nós e conseguem mudar a nossa forma de olhar o mundo. E talvez seja essa uma das maiores formas de eternidade: permanecer na maneira como os outros passam a ver a vida.

Aproveito para relembrar que esta história também ganhou vida nos palcos portugueses. Tive o privilégio de a ver através da arte portuguesa e, para mim, não havia ninguém melhor do que Diogo Infante para interpretar John Keating, numa representação que é também uma bonita homenagem à memória de Robin Williams.

A peça encontra-se em cena no Teatro da Trindade, em Lisboa, até 20 de dezembro de 2026, seguindo depois para o Teatro Sá da Bandeira, no Porto, em janeiro de 2027.

Em suma, este filme é uma história de paixão, coragem e de atrevimento. De nos atrevermos a dizer ao mundo e a nós próprios quem somos, o que queremos e quais são os nossos sonhos.

E acho que a poesia tem uma grande parte nisso. Porque, às vezes, precisamos de encontrar nas palavras dos outros a coragem que nos falta para escrever a nossa própria história.

Ana Melo Cano

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