A insustentável leveza do ser

   

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Desde que me lembro, A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, era apontado como um daqueles livros que devíamos ler antes de morrer. Figurava nas listas de obras preferidas de personalidades que estimo e admiro, culturalmente falando, ou melhor, escrevendo.

Acontece que, quando comecei a ler este livro, não conseguia parar, por mais cansativo que tivesse sido o meu dia.

A forma como Tomaz e Tereza se encontram faz-nos questionar se, de facto, o amor existe ou se não será apenas uma relação de interesses, na qual aquilo que se troca são carências, ausências, abandonos, faltas de cuidado e excessos de controlo. Como se até respirar pudesse estar errado.

Ao longo do enredo, a relação entre Tomaz e Tereza leva-nos a pensar nas pessoas com quem nos cruzamos ao longo da vida. Será que aparecem para nos aliviar de alguma coisa, retirar-nos um peso ou acrescentar-nos outro? A verdade é que, depois de as conhecermos, também nós mudamos.

Mas creio que havia algo mais que os ligava.

Tomáš encontrava em Tereza um desejo de cuidar e proteger que nunca sentira por ninguém, nem pela ex-mulher, nem pelo próprio filho. Uma necessidade de a amparar.

Já Tereza via nele alguém que finalmente a tinha visto de verdade. Alguém que olhara para ela como mais ninguém o fizera, que lhe conhecia o andar, as expressões e os gestos. Alguém que tinha tempo para a ver.

Outra personagem intrigante que nos surge é Sabina. Sabina e o seu chapéu de coco.

Sabina tinha um espírito irrequieto, uma rebeldia que parecia esconder algo mais. Foi desafiando a vida, perguntando-se até onde poderia ir, qual seria a pior coisa que poderia fazer. Queria provocar um terramoto, sentir-se verdadeiramente viva. Cedeu aos seus caprichos, que acabaram por se transformar nas sombras das suas próprias vontades.

Sabina e Franz mantêm um caso cuidadosamente organizado. Encontram-se em cidades de países diferentes daquele em que vivem, pois, para Franz, seria impensável trair a mulher no seu próprio país, mas, noutro, parecia-lhe possível. Gostava de separar as águas.

Sentia-se prisioneiro do casamento, como se a sua maneira de ser e de pensar estivesse suspensa. Também não sentia uma verdadeira proximidade com a filha, que tanto se assemelhava à mãe na personalidade.

Franz era um homem que procurava provar o seu valor, que desejava fazer parte de algo maior do que ele, de algo importante que pudesse combater o vazio que sentia dentro de si. E, já próximo da morte, parece compreender que a felicidade pode residir nas coisas simples.

Tal como acabam por compreender Tereza e Tomaz, que encontram conforto numa vida simples, longe das ambições e inquietações que anteriormente os acompanhavam. Encontram-no também em Karenin, o cão que partilha os seus dias e que representa uma forma de amor desprovida das contradições humanas.

Tomaz, médico de profissão, chega a trabalhar como lavador de janelas, depois de sofrer as consequências de um texto que escrevera. Tudo isto num contexto político em que parecia não haver lugar para ambiguidades: ou se era preto ou se era branco.

Em suma, creio que esta obra nos mostra as diferentes formas através das quais as personagens procuram alcançar a leveza. Talvez ela esteja no vazio, no nada, no pior cenário alguma vez imaginado ou, simplesmente, no ato de olhar pela janela.

Uns vivem, outros morrem, mas todos parecem procurar, à sua maneira, essa leveza.

Haverá maior propósito para viver do que esse?

Ana Melo Cano

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