A série Rabo de Peixe dá pelo nome de uma das muitas freguesias da ilha de São Miguel. Uma série que alcançou visibilidade para além do oceano: a produção de Augusto Fraga chegou ao top das séries mais vistas em 33 países.
Segundo os dados disponibilizados pela Netflix, foi a série mais vista em Portugal, a sexta mais vista em Espanha e a décima mais vista no Luxemburgo.
Mas, afinal, o que tem de tão especial esta série de apenas sete episódios, com cerca de 50 minutos cada?
Trata-se de um enredo movido pelo sonho de um jovem que deseja abandonar a sina de uma vida pobre e partir para a América em busca de uma oportunidade.
Esta história conta com a participação de um célebre ator português, Pepê Rapazote, uma das grandes figuras de destaque da televisão portuguesa e não só. O ator participou também na série americana Narcos e em A Rainha do Tráfico. Assim sendo, poderíamos dizer que o papel de contar esta história só poderia ser desempenhado por Pepê Rapazote ou Joaquim de Almeida, dois grandes atores com um pé em cada ponta do oceano.
Uma história inspirada em factos verídicos
Voltando à história desta série, que conquistou o público português e não só, um fator interessante, se não o mais importante, conduz-nos ao facto de o ponto culminante da narrativa, aquele que determina todo o enredo, ser inspirado em acontecimentos reais.
A 6 de junho de 2001, cerca de 500 quilos de droga deram à costa de Rabo de Peixe, uma das freguesias mais pobres do país. Uma tempestade perfeita.
Há pouco mais de duas décadas, um veleiro Sun Kiss 47, com dois traficantes a bordo, enfrentou sérias dificuldades. A tempestade não dava tréguas e não podiam atracar.
Perante aquele cenário, impunham-se apenas três hipóteses: nas primeiras duas, aqueles homens só sairiam daquela situação presos ou mortos; a terceira seria um milagre.
Será que os milagres acontecem e se repetem?
Posso dizer-vos que um aconteceu. Mas será que o milagre foi aqueles homens terem escapado à tempestade ilesos ou 500 quilos de droga terem dado à costa de uma das freguesias mais pobres do país?
Os pontos fortes da produção
Os pontos fortes desta produção de Augusto Fraga são vários, como é exemplo o elenco, que conta com a participação de reconhecidos atores portugueses, como José Condessa, Helena Caldeira, Rodrigo Tomás, André Leitão, Kelly Bailey, Maria João Bastos, Pepê Rapazote, Albano Jerónimo, Afonso Pimentel e Salvador Martinha.
Outra característica que poderá estar na origem de tanto sucesso e visibilidade é o pormenor, o cuidado em contar a história de uma população com uma carga pesada e fortes costumes, características marcadas pelo isolamento desta pequena freguesia, no meio de uma ilha, no meio do oceano, que em poucos dias ficou na boca do mundo.
Fraga teve especial atenção ao retratar a história, os costumes e as tradições destas gentes. São vários os momentos de comunhão entre a comunidade: procissões, missas, devoção e muita fé.
Outro fator importante conduz-nos à banda sonora, um conjunto de músicas diversificadas, muitas delas atuais. Contudo, há duas que se destacam das restantes.
A primeira é Eu Não Vou Chorar, de Sandro G, uma música que foi um êxito no início dos anos 2000 e que retrata bem a realidade daquela freguesia piscatória, mas também o orgulho em ser açoriano. Há que evidenciar que a própria música é contemporânea da época retratada na série, cuja ação remonta a 2001.
A segunda é Ilhas de Bruma, de Manuel Medeiros Ferreira, uma ode aos Açores.
O que faltou a Rabo de Peixe?
Quanto aos pontos menos positivos, que contrastam com tudo o resto, há um aspeto que merece destaque.
Tudo foi pensado: a história, a tradição e a música estão presentes ao longo de todo o enredo. Contudo, há aqui uma grande ausência: falta o sotaque micaelense, que foi, em grande medida, substituído pelo sotaque lisboeta, sem que nenhuma das personagens lhe prestasse a devida homenagem.
Uma homenagem aos Açores
Com mais encantos do que desencantos, Rabo de Peixe apresenta-se como uma oportunidade para conhecer um pouco da história e da realidade de um Portugal azul profundo, agora devidamente homenageado.
Quem sabe se, muito em breve, esta freguesia não será mais procurada em termos de visitas ou, pelo menos, mais conhecida?
Uma coisa é certa: quem não conhecia o nome e a história desta freguesia dificilmente os irá esquecer.
Talvez a Netflix tenha tido um papel importante nisso.
Ana Melo Cano

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