uma amizade improvável que nos ensina a cuidar
Recentemente, deparei-me com o filme Rosa e Momo na Netflix. Uma hora e meia bem passada, posso já adiantar.
Realizado por Edoardo Ponti e protagonizado por Sophia Loren e Ibrahima Gueye, o filme estreou em 2020 e é uma adaptação do romance A Vida à Sua Frente, publicado em 1975 pelo escritor francês Romain Gary, sob o pseudónimo Émile Ajar. A obra venceu o prestigiado Prémio Goncourt e encontrou no cinema uma nova forma de chegar ao público.
A história fala-nos, sobretudo, de um encontro. De uma amizade improvável entre um rapaz cheio de energia e mágoa e uma senhora idosa, de movimentos lentos, mas com uma sabedoria e uma serenidade que a vida lhe ensinou.
A primeira impressão que Madame Rosa (Sophia Loren) tem de Momo (Ibrahima Gueye), diminutivo de Mohamed, é a pior possível. O jovem derruba-a no mercado e rouba-lhe dois castiçais, cuja venda lhe permitiria pagar a renda.
Momo é um rapaz senegalês de 12 anos, órfão de mãe, que vive no sul de Itália ao cuidado do Dr. Coen. O médico estima-o, mas já não reúne condições para continuar a tomar conta dele.
Momo é daqueles rapazes de quem a inocência parece ter fugido demasiado cedo. Vive como se estivesse constantemente à espera do próximo ataque, sempre preparado para se defender de um mundo que pouco lhe deu.
Madame Rosa, por sua vez, tinha sido prostituta na juventude e, agora, no inverno da vida, transformara a sua casa num refúgio para os filhos de mulheres que se dedicavam à prostituição.
Quando o Dr. Coen descobre a quem Momo roubou os castiçais, leva-o até casa de Madame Rosa, sua amiga e paciente de longa data. Obriga o rapaz a pedir desculpa e, mediante uma mensalidade, convence-a a acolhê-lo.
O convívio inicial está longe de ser fácil. Momo não se adapta à nova casa nem às outras crianças que ali vivem. Entretanto, começa a traficar droga, convencido de que encontrou uma forma de ganhar dinheiro e, talvez, de conquistar algum respeito.
Mas há um mistério naquele prédio.
Na cave existe um espaço onde Madame Rosa passa longos períodos. Iosif, uma das crianças, acredita que ela é uma agente secreta e que aquele esconderijo não passa de uma espécie de Batcaverna.
Momo, contudo, desconfia de que existe algo mais profundo por detrás daquele comportamento. Encontra-a várias vezes naquele lugar e recebe sempre a mesma resposta: que a deixe estar, porque ali se sente segura.
Preocupada com o tempo que Momo passa fora de casa, Madame Rosa leva-o até ao senhor Hamil, um comerciante muçulmano com quem o rapaz partilha a religião. À primeira vista, trata-se de uma pequena loja, mas, no seu interior, esconde-se a verdadeira paixão daquele homem: os livros e os tapetes.
O senhor Hamil procura aconselhá-lo e alerta-o para as más companhias. Porém, Momo não lhe dá ouvidos. Torna-se cada vez mais violento, convencido de que aquelas pessoas são suas amigas.
Mas estava tão enganado.
As feridas que o tempo não apaga
Madame Rosa também carrega consigo um passado doloroso. Sobrevivente do Holocausto, esteve presa em Auschwitz durante a infância, por ser judia.
Por vezes, a sua memória transporta-a de volta àqueles tempos. Fica ausente, como se o presente deixasse de existir e o passado voltasse a tomar conta dela.
É então que compreendemos melhor o significado da cave: aquele pequeno espaço representa a segurança que tantas vezes lhe faltou ao longo da vida.
Quando Madame Rosa se perde nas suas recordações, é Momo quem procura trazê-la de volta à realidade.
A mulher faz-lhe um pedido: não quer morrer num hospital. Quer permanecer num lugar onde se sinta segura. Momo promete respeitar a sua vontade.
E há algo particularmente comovente nesta inversão de papéis. A mulher que acolheu tantas crianças e que se habituou a cuidar dos outros começa, lentamente, a precisar de ser cuidada.
Uma leoa chamada amor
Ao longo do filme, Momo tem um sonho recorrente: uma leoa aproxima-se dele, brinca e cuida dele.
Gosto de interpretar esta figura como uma espécie de amiga imaginária, uma representação do amor e da proteção que lhe faltaram durante grande parte da vida. Talvez seja também uma ligação simbólica às suas origens senegalesas.
A leoa parece representar aquilo que Momo mais deseja, embora dificilmente o admita: sentir-se protegido, amado e verdadeiramente acompanhado.
À medida que a história avança, os laços entre Momo e Madame Rosa tornam-se cada vez mais fortes. Aquilo que começou com um roubo transforma-se numa relação de confiança e afeto.
Quando Madame Rosa é levada para o hospital, Momo decide abandonar o tráfico de droga e empenha-se em resgatá-la, determinado a cumprir a promessa que lhe fizera.
O rapaz que parecia incapaz de confiar em alguém descobre, afinal, que também é capaz de cuidar.
Muito mais do que uma amizade improvável
Rosa e Momo é um filme sobre a solidão, a memória, o abandono e, acima de tudo, sobre a capacidade de encontrarmos afeto onde menos esperamos.
Apesar da beleza da história e da força das personagens, senti que o filme poderia ter ido mais longe. Rosa e Momo carregam consigo experiências de perda e sofrimento que mereciam um desenvolvimento emocional mais profundo. Em determinados momentos, pareceu-me que a narrativa passou demasiado depressa por sentimentos que precisavam de tempo para amadurecer.
Talvez tenha sido essa a minha maior desilusão: perceber que uma história com tanto para contar poderia ter-nos dado ainda mais. Ainda assim, a relação que nasce entre estas duas personagens não deixa de ser comovente.
Rosa e Momo deixa-nos um lembrete: aquilo que procuramos pode estar nos lugares mais improváveis ou em alguém com quem nunca pensámos cruzar-nos.
Talvez seja essa uma das maiores surpresas da vida: descobrir que, por vezes, quem mais precisa de ser cuidado também tem muito para dar.
Ana Melo Cano

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