Uma Nova Mulher: há histórias que continuam connosco

   

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Há cerca de uma semana, terminei de assistir à terceira e última temporada da série turca Uma Nova Mulher, disponível na Netflix. Entretanto, vi outros conteúdos, conheci outras histórias e outras personagens. Mas continuo a pensar nesta série.

Continuo a pensar na Ada, na Leyla e na Sevgi. Na ilha, no mar e naquela forma tão particular de olhar para a vida.

Talvez porque algumas histórias não terminem verdadeiramente quando surgem os créditos finais.

No início da série, Ada é uma cirurgiã casada com Selim. Leyla abandonou os estudos de Psicologia para se dedicar ao marido e ao filho. Sevgi é uma advogada bem-sucedida que enfrenta uma luta contra o cancro.

Três mulheres com vidas muito diferentes, mas unidas por uma amizade que parece resistir a tudo.

É Sevgi quem desencadeia a viagem que acabará por transformar as três. Depois de ouvir falar de uma abordagem alternativa, decide interromper temporariamente o tratamento hospitalar e viajar até Ayvalık, uma localidade junto ao mar. Ada, enquanto médica, contesta a decisão, mas acaba por acompanhar as amigas.

É aí que conhecem Zaman, um homem que procura ajudar as pessoas a confrontarem-se com feridas emocionais que, muitas vezes, nem sabiam carregar.

E é também aí que surge um dos temas centrais da série: as constelações familiares.

As feridas que herdamos

A constelação familiar é uma abordagem desenvolvida pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger, que procura explorar os conflitos individuais através das relações e dinâmicas familiares. Nas sessões de grupo, os participantes podem representar membros de uma família, numa tentativa de identificar padrões, tensões e acontecimentos do passado que possam influenciar o presente.

Esta prática tem despertado interesse e sido objeto de investigação, embora continue a ser controversa. Os estudos realizados até agora apresentam algumas observações positivas, mas a evidência científica disponível é ainda limitada e não permite confirmar muitas das explicações propostas pelos seus defensores.

Na série, porém, esta abordagem serve de ponto de partida para uma pergunta que me parece fascinante: até que ponto somos influenciados pelas histórias daqueles que vieram antes de nós?

Poderemos carregar medos, silêncios ou formas de amar que aprendemos sem nos apercebermos? E será que conhecer melhor o passado da nossa família nos ajuda a compreender o presente?

Independentemente das respostas, há qualquer coisa de profundamente humana nesta vontade de perceber de onde vimos para descobrirmos quem somos.

A vontade de viver

Uma Nova Mulher é uma série apaixonante, com aquela intensidade tão característica das produções turcas.

As personagens têm ganas de viver, de gritar, de amar. Amam profundamente, zangam-se, perdoam, cometem erros e voltam a tentar. Poucas parecem dispostas a passar pela vida sem sentir.

A série tem muitos dos ingredientes que encontramos nos dramas românticos: casamentos, divórcios, traições, perdas, reencontros e declarações de amor.

Mas tem algo mais.

Faz-nos questionar a forma como vivemos, as escolhas que fazemos e as relações que construímos. Leva-nos a pensar na família, nas pessoas que nos marcaram e até naquelas que nunca chegámos a conhecer.

É, acima de tudo, uma história sobre autoconhecimento. Sobre a coragem de olhar para dentro, mesmo quando aquilo que encontramos não é particularmente bonito.

A amizade que me provocou inveja

Mas houve uma coisa nesta série que me tocou de uma forma especial.

A amizade entre Ada, Leyla e Sevgi.

E confesso que senti inveja. Sim, inveja.

Inveja daquela ligação entre três mulheres que se amavam como irmãs. Companheiras de vida, capazes de se acompanhar nos momentos mais felizes e também naqueles em que tudo parecia desmoronar-se.

Uma ligação que, por vezes, parecia mais forte do que qualquer relação amorosa.

Sempre quis uma amizade assim.

Não sei se uma relação daquela intensidade existe verdadeiramente ou se pertence sobretudo ao universo da ficção. Espero que exista. Gosto de acreditar que sim.

Talvez seja por isso que continuo a pensar na série. Não apenas pelas histórias de amor, pelas feridas familiares ou pelas perguntas que deixa no ar, mas por aquelas três mulheres que, apesar de tudo, nunca deixaram de encontrar o caminho umas para as outras.

No fundo, talvez todos procuremos um pouco disso: pessoas com quem possamos atravessar a vida, sem termos de enfrentar tudo sozinhos.

Ana Melo Cano

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