Mestres de outro tempo

   

Written by:

Ao visitar o Museu Etnográfico de Serpa, entramos em contacto com a nossa história e com os atores sociais de um passado não assim tão distante. Conhecemos as suas necessidades, qualidades, dificuldades e as vicissitudes que marcaram o quotidiano de outras gerações. Num tempo não assim tão distante, mas profundamente diferente, os mestres não eram como os que hoje designamos por esse nome. Eram homens e mulheres encaminhados desde muito cedo para um ofício, um trabalho que lhes dava identidade, que lhes ocupava o tempo e, muitas vezes, lhes definia a vida inteira.

Falamos do sapateiro, do alfaiate, do ferreiro e de tantos outros ofícios que hoje sobrevivem sobretudo nos livros ou nos museus, porque os tempos são outros. Este museu é mais do que um espaço de memória histórica. É um lugar de antropologia viva. Faz-nos pensar no que mudou, no que permaneceu e na realidade em que hoje vivemos, onde quase todos somos doutores, mestres ou engenheiros, mas raramente temos metade da arte, do engenho, do tempo, da prática ou da dedicação daqueles que aprenderam fazendo, ao longo de uma vida inteira.

O ensino massificou-se e vulgarizou-se em nome de metas e indicadores europeus onde o que importa são os números. E há aqui uma ironia difícil de ignorar. Qualquer um destes artesãos, se tivesse um neto licenciado ou com mestrado, sentiria um orgulho imenso e, ao cruzar-se com um desses doutores, rebaixar-se-ia no cumprimento, em sinal de respeito. Não sabem, os que ainda cá estão, que o ensino mudou profundamente. Desconhecem esta realidade onde, de dois em dois anos, se formam mestres por designação académica, quando outrora mestre era quem dedicava uma vida inteira a aprender e a aperfeiçoar o seu ofício.

Talvez a própria semântica não lhes faça justiça. Talvez seja por isso que esta homenagem se torna tão necessária, para devolver dignidade às palavras, aos gestos e às vidas que lhes deram verdadeiro significado.

Ana Melo Cano

Deixe uma Resposta