Vivemos num tempo apressado, numa corrida constante contra o relógio, em que todos os dias tentamos ser a melhor versão de nós próprios. Reconhecemos, com facilidade, a importância do exercício físico, de uma alimentação cuidada, da moderação dos vícios, seja o tabaco, o café ou o álcool. Falamos de saúde com naturalidade. Falamos de bem-estar. Falamos de equilíbrio. Mas os livros ficaram para trás.
Não por falta de reconhecimento da sua importância, mas porque ler se tornou um desafio exigente. Ler obriga-nos a concentrar a atenção inteira numa única atividade, sem atalhos nem distrações. Obriga-nos a parar. A entregar-nos à visão de outro. A aceitar, por algum tempo, ser guiados por um autor, alheados do ruído exterior, das urgências, dos problemas e das responsabilidades. O “não tenho tempo” tornou-se o maior inimigo da leitura e da literatura.
Umberto Eco defendia que devíamos ter muitos livros em casa, mesmo que não os lêssemos todos. A biblioteca, dizia, funciona como um armário de remédios: não está ali para ser consumida de uma só vez, mas para ser usada conforme a necessidade. Cada livro combate um mal específico. Cada livro espera pelo seu momento.
Para os males do coração, talvez seja preciso voltar a Camilo Castelo Branco, onde a paixão nunca é simples nem confortável. Para quem precisa de compreender a fragilidade humana, Vergílio Ferreira continua a ser um exercício de lucidez implacável. Para quem deseja conhecer o país profundo, as suas virtudes e contradições, Eça de Queirós permanece um guia insubstituível. Para quem precisa de reaprender a ver o mundo com espanto, Sophia de Mello Breyner Andresen lembra-nos que a clareza também pode ser uma forma de resistência. E para quem sente o peso do absurdo e da inquietação, José Saramago continua a obrigar-nos a pensar, mesmo quando isso incomoda.
Sabemos que o nosso tempo é limitado. Talvez por isso a leitura seja uma das poucas formas de viver mais do que uma vida. Ler permite-nos atravessar épocas, habitar outras consciências, conhecer lugares onde nunca estaremos fisicamente. Permite-nos viajar no tempo, regressar ao passado ou imaginar futuros possíveis. Quem sabe, até imaginar uma visita à Biblioteca de Alexandria.
Ainda assim, hoje parece aceitar-se que, para andar sobre os ombros de gigantes, são necessárias outras competências, outros feitos, outros domínios. A leitura deixou de ser vista como uma dessas formas de elevação. Preferimos a velocidade à profundidade, o imediato ao duradouro.
Talvez andemos enganados, como Dom Quixote, a ver gigantes onde apenas existem moinhos. Ou talvez estejamos a perder a oportunidade de reconhecer os verdadeiros gigantes, aqueles que nos precederam, pensaram antes de nós e nos deixaram palavras como degraus.
Porque ler é, de facto, andar sobre os ombros de gigantes, sejam esses autores consagrados ou novas vozes que nos ajudam a ver mais longe. Porque o conhecimento não pesa. Eleva.
Ana Melo Cano

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